É incrível como alguns cidadãos se transformam quando estão ao volante
de um automóvel. Em casa, no trabalho, em reuniões sociais ou com os
amigos são pessoas equilibradas, sensatas, corteses, bem-educadas,
enfim, são pessoas dignas de receberem um prêmio como cidadão
modelo – alguns deles, às vezes, cometem deslizes de comportamento,
logo desculpados, afinal é um indivíduo íntegro, e ninguém é perfeito, não
é mesmo?
O relacionamento entre as pessoas geralmente é cordato. Centenas de
escritores já produziram milhares de textos a fim de ensinar a melhor
conviver com os semelhantes. Todos querem ser respeitados e
considerados "gente boa". Ninguém tem apreço pelo estúpido; ninguém
admira o mal-educado, o grosseiro. Já disseram que a maioria das
demissões ocorre por problemas de relacionamento nas empresas, e não
por incompetência. O assunto é discutido em reuniões da diretoria, de
chefia, entre os funcionários, em palestra de auto-ajuda, em dinâmicas
realizadas pelo dep. de RH, enfim, a preocupação com o bom
relacionamento existe em todos os níveis. Se, ao andar, pisar no pé de
alguém ou esbarrar em alguém, o pedido de desculpas é imediato e de
ambas as partes. O mesmo acontece com o agradecimento: quando
ocorre, ambos querem agradecer. é um tal de "Obrigado"; "Obrigado eu",
"Obrigado você"; "Eu que agradeço", etc...
Coloquem-se esses cidadãos, porém, ao volante de um automóvel que se
transformarão. Findará a cortesia, se extinguirá a cordialidade. Aquele
cidadão sempre bem-intencionado para com os outros, se transfigura,
tomado de uma coragem inimaginável até então. Passa a se sentir o
senhor absoluto das ruas e das avenidas da cidade, julga ter completo
poder e controle sobre o trânsito, considera-se infalível e não admite ser
admoestado ou aconselhado por ninguém, já que ele jamais comete
infração alguma. Sempre os outros motoristas é que estão errados, ou os
pedestres, ou o guarda de trânsito, sempre injusto.
Esse é o que xinga o que ultrapassa sinal vermelho, mas sempre
encontra oportunidade para o fazer com alguma justificativa razoável;
reclama daquele que estaciona em fila dupla, mas é o primeiro a praticar
isso em frente à escola do filho; grita palavrões dentro do carro (ninguém
os ouve, é verdade, mas o faz como se o acusado estivesse a um metro
dele), faz sinais obscenos para os que cometem infrações, conversa ao
celular, pára sobre a faixa de pedestres, estaciona em local proibido,
enfim, comete as mais variadas transgressões com a maior desfaçatez,
como se a ele tudo isso fosse permitido, somente a ele, a mais ninguém.
Como isso se explica? Haverá alguma maneira de modificar essa
situação? Há algum psicólogo, ou psiquiatra, que entenda essa mudança
de comportamento? Acredito que essas perguntas jamais serão
respondidas. A solução é particular. O que faço é "ficar na minha" e
ignorar esses seres estranhos.
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